Ser feminista, me tornou mulher.

it's Girls' time /

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Ser feminista me tornou “uma pessoa pior”, mas nunca me avisaram que isso iria acontecer. Eu não nasci feminista, não cresci feminista, muito pelo contrário. Passei uns bons 15 anos diminuída, calada e minimizada. Cresci julgando outras garotas, minhas irmãs. Cresci me censurando, tentando me comportar do jeito que eu precisava, tentando me assegurar que não estivesse fazendo nada de errado, que eu estivesse impecável.

Impecável, com as pernas cruzadas, cabelo penteado, roupa passada, unhas compridas – que eu nunca consegui, por causa da ansiedade que sempre me acompanhou. Cresci escondendo minhas falhas, diminuindo as minhas dores e fechando a minha boca quando o que eu realmente queria fazer era gritar. Na verdade, a vida toda escutei “fala baixo”, “senta direito”, “olha a postura”, “sua roupa está amassada”, “você tem que parecer uma princesa”.

Princesa que até pouco tempo só tinha um objetivo: achar seu príncipe. Depois daí, ninguém sabe. Se casava, tinha filhos, se o principe era legal, se ela era feliz, isso não importava muito. O que importava era achar alguém para se completar, como se a Bela não fosse completa com seus livros, a Mulan não fosse completa lutando pela China, ou até a Pocahontas completa com as cores do vento. Nossa completude, desde pequena, se encontra em um homem. Não em mim, ou em você, não em uma outra mulher ou em conhecimento. Em um homem.

Aí eu cresci. Não muito, mas o suficiente para encontrar outras mulheres no meio do meu caminho, para sentar comigo e conversar sobre o que é ser mulher e sobre o que é doer por ser mulher. Até então, eu estava bem. Até então, não sentia dor. Não via problemas, não sentia o pesar de ter o mundo nas minhas costas. Mal sabia que não era nem livre, nem mulher.

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Todos sabemos que é muito difícil sair da zona de conforto. Mas não foi isso que o feminismo me trouxe. O feminismo me trouxe dedos apontados na minha cara, uma nudez inédita e um peso gigantesco. O feminismo arrancou o filtro cor-de-rosa que eu usava para enxergar o mundo. O feminismo me fez ver uma realidade que antes não via, mas existia nela, perpertuando padrões pesados e que eu nunca pedi para ser encaixada.

Vocês me vêem apenas como alguém que escreve, do outro lado da tela, mas eu vou me descrever pra vocês: eu não sou alta; não enxergo direito, então estou sempre com óculos. Meu cabelo não é liso, nem cacheado e muito menos aquele ondulado de novela, ele é um cabelo totalmente comum. Assim como meus fios, meus olhos são escuros. Eu não sou magra. Não me encaixo nesse padrão. E mesmo quando eu me encaixava, quando eu pesava 50 quilos, escutava o tempo inteiro que era gordinha. Mesmo magra, eu era gorda. Nunca estava nos padrões que nunca pedi pra ser encaixada.

Nunca pedi, mas fui. Nunca quis, mas me forçaram. Engoli a seco esteriótipos, padrões, missões e destinos. E não foi só eu. Somos todas nós. Mulheres, meninas. Desde sempre.

O problema é que durante anos, não via outras mulheres como “eu”, via outras mulheres como “elas“, como oponentes, como adversárias. Não que eu tivesse mais amigos homens, mas eu repetia muito que “preferia ter amigos que amigas, porque as meninas são muito fúteis e falsas”. Mas também, como não ser? Como sair desse circulo vicioso de competição que somos colocadas desde criancinhas?

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Com o tempo eu entendi. Comecei a notar que garotas não são fúteis e falsas, mas são espelhos de mim mesma. Em cada menina que eu competia, existia uma Giovanna: ansiosa, insegura, cheia de problemas e preocupações, uma vontade gigantesca de ser e pouco suporte pra isso. Foi a partir daí que eu entendi que não dava pra continuar praticando o ódio gratuito e a competição sem objetivo algum.

Mas não dá para dizer que esse é um processo fácil. Sair de qualquer zona de conforto é complicado, um processo lento e doloroso. Agora imagina quando o circulo de pessoas que me encontro diz que é assim que tem que ser, e pronto-acabô. O lugar de mulher é na cozinha, na lavanderia, cuidando da casa. Lugar de mulher é onde ela quiser, mas até você se livrar das amarras e ir pra qualquer lugar, iiiii, é difícil.

Mas é possível.

E é preciso.

Ser feminista, me tornou mulher.

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21 comentários

  1. Carol Justo

    Eu simplesmente fiquei encantada com o texto e queria de verdade que as pessoas enxergassem isso. Somos tão acostumadas em um mundo, mas a gente precisa encarar a realidade e quando isso acontece, incomoda… Não tenho muito o que comentar sobre o texto, ele diz tudo! <3

    http://www.pinkisnotrose.com/

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    1. Giovanna

      awn, obrigada <3

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  2. Mariana

    Posso dizer que desde que conheci o movimento, com 16 para 17 anos, e me declarei feminista, virei uma pessoa muito odiada hahaha. Desde pequena eu ja questionava várias coisas que são pautas do movimento, do tipo “Por que eu preciso casar? E por que eu tenho que ficar em casa enquanto o meu marido trabalha?”, desde criança eu sempre avisava que não ia casar e ter filhos, que não nasci pra ficar “cuidando de homem” (isso com uns 10 anos, risos), por sorte tenho pais super mente aberta e eles sempre me deram liberdade pra ser quem eu quiser, mas aquelas tias mais velhas da familia quase infartavam quando eu soltava alguma coisa dessas perto delas.
    Enfim, comecei a ser bem odiada, principalmente por meninos. Eu ja não aturava eles e as coisas de mal gosto que falavam, quando estudei mais sobre o feminismo e me encontrei é que passei a não tolerar mais nenhuma gracinha vinda de deles.
    Por outro lado conheci garotas maravilhosas, e é tão reconfortante encontrar outras garotas feministas, a gente se sente tão querida e acolhida, né?
    Fico tão feliz quando encontro blogueiras que abordam esse tema e são a favor do movimento. Esses dias tive que ler uma blogueira que resolveu fazer um post todo só sobre o caso do estupro coletivo que aconteceu no RJ, tive que ler ela culpando a vitima, dizendo que ela gosta de “suruba”, que mereceu, que ninguém mandou ela estar lá, entre outras coisas horriveis.
    Ser feminista tbm é sofrer e sentir a dor de outras mulheres diaramente, é importante o máximo de união, hoje e sempre, são tantas coisas ruins acontecendo que até desanima a gente, esse post me alegrou, depois de tantas atrocidades que eu ja tive que ler.
    Beijos!!

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    1. Giovanna

      Eu super acredito nesse ódio. Também virei “a chata do rolê”, por mito tempo. Com o tempo minhas amigas começaram entender minha lógica e também se declarar feministas e lutar por mais direitos.

      Acho bem importante as blogueiras falarem sobre isso. Porque o universo é muito maior do que os nossos quartos/youtubes/blogs! Beijocas e continue nessa luta!

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  3. Wanila

    Texto INCRÍVEL e me identifiquei em cada palavra. O feminismo me salvou.

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    1. Giovanna

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  4. Florzinha

    melhor texto ever.

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    1. Giovanna

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  5. Florzinha

    (adorei o design novo!!! <3)

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  6. Florzinha

    este Doug arrasa

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    1. Giovanna

      Haha <3 passei o elogio pra ele (:

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  7. Nay

    A única coisa a ser dita depois desse texto é: AMÉM!

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    1. Giovanna

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  8. Chell

    Lindo texto!!!
    É incrível como essa mudança trás pra gente um novo jeito de ver a vida =D

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    1. Giovanna

      <3

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  9. cacá h.

    ‘O feminismo arrancou o filtro cor-de-rosa que eu usava para enxergar o mundo’

    ‘O problema é que durante anos, não via outras mulheres como “eu”, via outras mulheres como “elas“’

    que belo texto e que belas frases ;)

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    1. Giovanna

      Obrigada, gatinha (:

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  10. Karin Paredes

    Gigi,
    Vem aqui vamos conversar, vamos nos abraçar, vamos papear até altas horas juntas.
    Que texto! Que reflexão! Que tudo!
    Sinto-me como você e sei (tenho total certeza) que ainda estou muito longe de ser feminista. Principalmente com toda a carga cultural e social que me foi ensinada desde os primórdios da minha existência. Muitos pré-conceitos ainda estão no meu modo de pensar e agir.
    Mas aos poucos, vou aprendendo e compreendendo que preciso quebrar barreiras e ver um mundo ser a cor rosa enfeitando.
    Obrigada por também me ajudar nesse processo.
    Mil beijos!

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    1. Giovanna

      Vamos se conhecer de verdade, por favor <3

      Fico feliz de dividir com você esse sentimento!

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  11. susany oliveira

    Texto incrível Gigi. Acho que no fundo no fundo todas temos um pingo de feminismo em todas nós, mas nem todas se rebelam contra a sociedade machista em que vivemos. Confesso que é bem difícil quebrar essas imposições que nos colocaram todavia quando fazemos nos sentimos cada vez mais livres.

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  12. Débora

    Muito bom o texto! Muito bom mesmo! ^^

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